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Opinião |
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Fim da 6x1: Acidente com doméstica tem
ocultação mil vezes maior que média |
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Vitor Filgueiras🔹Professor
de Economia da UFBA e coordenador de projetos da Fundacentro |
Dados
sobre acidentes
de trabalho no Brasil revelam que a subnotificação
entre trabalhadoras
empregadas domésticas é 1000 vezes maior que a média de todas as categorias.
Isso aponta que patrões não estão comunicando acidentes ou adoecimento de uma
parcela vulnerável da população, composta principalmente por mulheres negras.
A
categoria seria beneficiada com o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de
44 para 40 horas semanais, em discussão no Congresso Nacional neste momento.
Representantes das trabalhadoras apontam que parte dos acidentes ocorre devido
ao cansaço e à exaustão.
Segundo
o Instituto Nacional do Seguro Social
(INSS), em 2024 foram registrados 834.048 acidentes de trabalho no país.
Desses, 744.477 ocorreram com emissão de Comunicação de Acidente
de Trabalho (CAT), documento obrigatório para
formalizar o vínculo entre o ocorrido e a atividade laboral. No mesmo período,
a Relação
Anual de Informações Sociais (Rais) indicava a
existência de 48.509.129 trabalhadores com carteira assinada, público
potencialmente coberto por esse tipo de registro.
Na
prática, isso significa que 1,72% dos trabalhadores formais tiveram acidentes
reconhecidos pelo INSS em 2024, percentual que cai para 1,53% quando
considerados apenas os casos com CAT. A literatura especializada, no entanto,
aponta que esses números estão longe de refletir a realidade, com uma
subnotificação de até 85% dos casos relacionados ao trabalho, especialmente os
mais graves.
No
trabalho doméstico formal, os indícios de subnotificação são ainda mais
extremos. De acordo com o eSocial,
havia 1.343.787 trabalhadoras domésticas com vínculo formal ao final de 2024.
Mesmo que não seguissem o padrão mínimo nacional de notificação, ou seja, que
hipoteticamente fosse de apenas 0,1% de incidência anual, ainda sim seriam
esperadas cerca de 1.300 comunicações de acidentes no ano.
Os
registros oficiais, porém, mostram outra realidade. Dados do INSS apontam
apenas 13 acidentes em serviços domésticos em 2024. Já o Smartlab,
plataforma que reúne informações sobre trabalho e saúde, registra 21
ocorrências no mesmo período. Isso equivale a um acidente para cada 63,9 mil trabalhadoras
domésticas, enquanto, no conjunto do mercado formal, a média é de um acidente
com CAT para cada 65 trabalhadores.
A
diferença sugere que a ocultação de acidentes e adoecimentos no trabalho
doméstico pode ser cerca de mil vezes maior do que na média nacional.
Outras
bases de dados reforçam a discrepância. O Sistema
de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Sistema Único de Saúde
(SUS), registrou 13.957 acidentes envolvendo
trabalhadores domésticos entre 2016 e 2020 — média de aproximadamente 2.800
casos por ano. Como esses registros são feitos por profissionais de saúde,
indicam uma ocorrência muito superior àquela reconhecida pelo sistema
previdenciário.
Além
dos acidentes típicos, há forte presença de doenças relacionadas ao trabalho —
que fazem parte do mesmo sistema. Pesquisa da Fundacentro
e da Universidade Federal do ABC,
realizada em 2025 com 81 trabalhadoras domésticas, mostrou que 80% continuaram
trabalhando mesmo doentes. O estudo aponta ainda que 96% faziam uso de
medicamentos, sendo 77% para dores musculares, 55% para dores articulares, 37%
para hipertensão e 36% para ansiedade.
Entre
os casos oficialmente registrados pelo INSS entre 2012 e 2024, predominam
fraturas (42,3%), seguidas por cortes e feridas (12,4%), lesões e escoriações
(12,2%) e distensões ou torções (11,9%). As regiões do corpo mais atingidas são
braços e mãos (35,8%) e pernas e pés (27,9%). Quedas — tanto no mesmo nível
quanto de altura — aparecem como principais causas, além de acidentes
envolvendo transporte e exposição a agentes biológicos.
Na
prática, relatos de atendimento indicam que muitos desses casos sequer chegam a
ser formalizados.
Um
levantamento do programa
Caminhos do Trabalho, que presta orientação a
trabalhadores, reuniu atendimentos realizados nos últimos dois anos e evidencia
situações recorrentes de adoecimento não reconhecido.
Na
Paraíba, uma trabalhadora relatou ter desenvolvido problemas cardíacos
associados ao estresse intenso no trabalho doméstico, incluindo arritmia e
falta de ar. Mesmo com recomendação médica para afastamento, continuou
trabalhando por necessidade financeira. Segundo o relato, não houve emissão de
CAT, apesar das condições de risco.
No
Distrito Federal, uma cuidadora de idosos sofreu fraturas na tíbia e na fíbula
após um idoso cair sobre ela em uma escada. A trabalhadora ficou hospitalizada,
passou por cirurgia e recebeu auxílio-doença comum, mas a empregadora não
registrou o acidente como relacionado ao trabalho.
Em
Pernambuco, uma empregada doméstica com mais de 20 anos de vínculo relatou
diagnóstico de síndrome do pânico, depressão e burnout, sem afastamento formal.
Segundo o atendimento, ela foi pressionada a pedir demissão mesmo diante de
laudos médicos, sem qualquer registro de acidente ou doença ocupacional.
Casos
de lesões por esforço repetitivo também aparecem com frequência. Em Minas
Gerais, uma trabalhadora com dores crônicas nos ombros teve a CAT emitida por
um médico, mas teve o benefício negado pelo INSS e retornou ao trabalho mesmo
incapacitada. Situação semelhante foi relatada em Santa Catarina, onde uma
doméstica com diagnóstico de tendinite e LER afirmou ter sido obrigada a
continuar trabalhando apesar das dores.
Há
ainda registros de quedas, hérnias de disco, cardiopatias e transtornos mentais
sem reconhecimento formal. Em vários relatos, as trabalhadoras mencionam
ausência de equipamentos de proteção, jornadas prolongadas, falta de pausas e
pressão psicológica.
Especialistas
apontam que a relação direta entre empregador e empregado (muitas vezes sem
mediação institucional) contribui para a baixa notificação. A informalidade
histórica do setor, mesmo após avanços legais, e a dificuldade de acesso a
informação sobre direitos também são fatores citados.
Sem
o registro adequado, trabalhadoras ficam impedidas de acessar benefícios
previdenciários específicos, como o auxílio-doença acidentário, e não têm
garantias como estabilidade no emprego após afastamento.
Os
dados disponíveis indicam que, embora o Brasil já enfrente um cenário amplo de
subnotificação de acidentes de trabalho, o emprego doméstico permanece como um
dos pontos mais críticos de invisibilidade estatística, com impactos diretos
sobre a saúde e a proteção social de milhões de trabalhadoras.
Por
conta desse cenário de extrema ocultação, Campanha Nacional pelo
Trabalho Doméstico Decente tem, este ano, como eixo a
questão da saúde e segurança. O encontro da campanha será em Belém (PA), nos
dias 24 e 25 de abril. Haverá atendimentos gratuitos a trabalhadoras e
trabalhadores do setor.
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